Existe o gestor que erra e esconde o prejuízo debaixo do tapete. Existe o que chama fracasso de "ajuste estratégico de rota". E existe a Squadra Investments, que pegou a caneta e escreveu, com todas as letras em sua carta anual aos cotistas: a Hapvida (HAPV3) foi o maior erro de investimento da sua história.
A fala veio acompanhada de atitude no tape. A Hapvida confirmou que a gestora reduziu sua participação para 3,87% do capital (ante os 5,15% registrados em julho). O detalhe é o timing: o corte veio logo após a Squadra brigar — e vencer — uma batalha para emplacar três conselheiros no board da operadora de saúde com a promessa de arrumar a casa. No fim, a paciência acabou.
Os 3 Pilares do Erro: Valuation, M&A e Governança
Na carta enviada ao mercado, a Squadra assumiu ter falhado nos três pilares fundamentais de qualquer análise de Valuation e M&A:
Preço (Valuation)
Pagou um múltiplo esticado em topo de ciclo, aportando capital em um valuation incompatível com o risco da operação.
Negócio (Operação)
Subestimou a indigestão operacional de integrar gigantes como a NotreDame Intermédica (GNDI) e gerenciar a sinistralidade elevada no pós-pandemia.
Gestão (Governança)
Avaliou mal os executivos a quem confiou o capital — o erro mais grave, pois compromete a alocação de capital e contamina toda a execução estratégica.
O impacto financeiro no portfólio da gestora foi direto. Em 2025, os fundos Long-Biased e Long-Only da Squadra renderam 29,4% e 27,7%, ficando atrás dos 34% do Ibovespa. No primeiro semestre de 2026, enquanto o Ibovespa subia 6,8%, os fundos da gestora recuaram 5,1% e 6,2%, respectivamente.
📊 Métrica do Desastre: O Encolhimento da Hapvida no Mercado
O cenário atual da Hapvida expõe a gravidade do momento vivido pelo setor de saúde suplementar no Brasil:
| Indicador Fundamentalista | Desempenho / Posição Atual (2026) |
|---|---|
| Cotação da Ação (HAPV3) | R$ 6,29 a R$ 6,61 (variação intradiária) |
| Queda no Ano (YTD) | -55,13% a -57% |
| Queda no Mês (Agosto/2026) | -43% a -44% |
| Valor de Mercado Atual | R$ 3,2 bilhões |
| Participação da Squadra | 3,87% (representava apenas 1% dos fundos na carta) |
| Sinistralidade Média do Setor | Próxima de 85% a 88% |
| Base de Clientes (ANS) | Redução contínua de beneficiários no 4T25 e 1T26 |
Contexto Setorial: Saúde Suplementar sob Pressão
Sinistralidade Crítica
A média do setor no Brasil tem se mantido entre 85% e 88%, sufocando a margem operacional de redes como Hapvida e NotreDame.
Fuga de Clientes
Dados oficiais da ANS e balanços de mercado indicam perda consistente de beneficiários, refletindo crise de confiança e forte pressão concorrencial.
Deterioração Financeira
Balanços recentes mostram queima de caixa e margens comprimidas, aumentando as dúvidas sobre a capacidade de recuperação operacional sem um corte drástico de ativos.
O Playbook de Sobrevivência: Desinvestimento e Retorno ao Core
O diagnóstico para a Hapvida tentar virar o jogo não passa por novas aquisições, mas sim pelo desmonte do que não funciona:
- Venda de Ativos Não-Core: Desinvestir e alienar operações nas regiões Sul e Sudeste, onde a concorrência é predatória e os custos hospitalares corroem as margens.
- Foco no Core Business: Retrair a operação para as origens no Nordeste e Norte, onde a empresa detém escala, rede própria consolidada e vantagem competitiva real.
- Desalavancagem Financeira: Reduzir o endividamento em um ambiente de juros altos e custo de oportunidade elevado para os investidores.
Se o plano de reestruturação for executado com precisão, a Squadra reconhece que o papel pode "se multiplicar algumas vezes". Porém, a própria gestora alerta: a travessia será dura, pesada e sem espaço para ilusões.
📈 Raio-X do M&A no Brasil e Setor de Saúde (2025–2026)
Volume Histórico em 2025
O Brasil registrou mais de 1.800 operações de fusões e aquisições, movimentando cerca de US$ 58 bilhões e consolidando-se como o principal polo de M&A da América Latina.
Mudança de Perfil em 2026
Foram mapeadas cerca de 610 transações no 1º semestre (dados KPMG), movimentando R$ 195 bilhões. Recuo de 35% no volume, mas alta de 3% no valor — concentração em mega-deals.
Tecnologia e Saúde sob Seletividade
O M&A em tecnologia caiu 33% no 1º semestre de 2026, sinalizando que a régua de aprovação e de valuation subiu consideravelmente em todas as teses de crescimento acelerado.
Gargalo de Integração
No setor de saúde, a consolidação continua sendo a única rota para ganho de escala, mas a integração cultural, de sistemas e de processos de TI tornou-se o maior gargalo das teses de M&A.
💡 Análise do Strategist (Advisor Negócios): Lições para Empresas e M&A
A admissão de erro da Squadra traz lições de alto nível para empresários, diretores e consultores de negócios:
- Fusões Não Resolvem Problemas Operacionais: M&A acelerado sem integração profunda de cultura, processos e TI apenas multiplica a ineficiência.
- Capacidade de Desinvestir (Stop Loss Estratégico): Tão importante quanto saber comprar um negócio é reconhecer quando desinvestir antes que o ativo comprometa todo o portfólio.
- Múltiplo de Entrada Importa: Pagar caro por uma tese excelente perdoa poucos erros de execução. Pagar caro por uma tese com gargalos operacionais é receita para destruição de valor.
- O Novo Rigor de 2026: Com a queda no volume de transações e a concentração em mega-deals, os investidores estão exigindo processos de Due Diligence operacionais muito mais rígidos antes de assinar o cheque.
O erro mais caro em M&A não é pagar errado. É não reconhecer o erro a tempo de parar de sangrar.